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Um dia vou usar isso em algum treinamento sobre clareza de raciocínio…

“Doctor Franz Kuhn atribuye a cierta enciclopedia china que se titula Emporio celestial de conocimientos benévolos (…) que los animales se dividen en: (a) pertenecientes al Emperador, (b) embalsamados, (c) amaestrados, (d) lechones, (e) sirenas, (f) fabulosos, (g) perros sueltos, (h) incluidos en esta clasificación, (i) que se agitan como locos, (j) innumerables, (k) dibujados con un pincel finísimo de pelo de camello, (l) etcétera, (m) que acaban de romper el jarrón, (n) que de lejos parecen moscas.

Borges, El idioma analítico de John Wilkins

Não ando escrevendo muito (não ando escrevendo nada), mas deveria. Pelo menos estou lendo muito e agora estou lendo Vinícius de Moraes, Para viver um grande amor.

Lá pelas tantas do livro, ele comenta sobre uma boa resenha que ele leu no El País de Montevidéu do livro The elements of style, de William Strunk Jr. O livro deve ser muito bom, se confiarmos na capacidade do Vinícius de identificar boas resenhas, e de qualquer forma eu gostei do comentário à resenha.

“A prosa vigorosa é concisa. Uma frase não deve conter palavras desnecessárias, nem um parágrafo frases desnecessárias, pela mesma razão que um desenho não deve ter linhas desnecessárias, nem uma máquina partes desnecessárias. Isto não quer dizer que um escritor faça breves todas as suas frases, nem que evite todo detalhe, nem que trate seus temas apenas na superfície; apenas que cada palavra conta”.

Outras breves máximas sobre um escrever bem:

  • Use uma linguagem positiva, ao invés de “habitualmente não chegava à hora”, diga “habitualmente chegava tarde”.
  • Seja concreto
  • Abrevie o mais que puder
  • Não qualifique
  • Não use adornos
  • Coloque-se atrás do que escreve, de tal forma que a atenção do leitor seja despertada pelo sentido e pela substância do que está dito, e não pelo temperamento e modismos do autor.
  • Use substantivos e verbos (evite o mais possível adjetivos e advérbios)
  • Não superescreva
  • Não exagere e seja claro
  • Não opine sem razão

Humm… Começando a entender as coisas. Eu, pessoa competitiva e de sangue quente, detesto perder quaisquer tipos de competições, mesmo aquelas para as quais eu não ligo muito, mesmo aquelas que eu não sabia que estava participando. Não é muito bonito, eu sei, mas acho que isso explica parte da insatisfação recente com o universo.

A explicação talvez ajude a revelar uma solução: arrumar outra competição, antever as possibilidades de vitória, voltar ao trabalho e a vida.

A Ione está arrumando, pouco a pouco, a animação para escrever de novo. Arrumou dois lugares para as pessoas colocarem perguntas e vai respondendo e escrevendo. Se serve de pretexto, está valendo.

Outro dia pensei em como eu poderia arrumar outra vez uma desculpa para escrever no blog com certa presteza. Iria arrumar alguns temas. Uma coisa que as pessoas parecem apreciar em mim é que eu gosto de contar histórias. E aparentemente, as histórias são boas. Então, como escrever histórias? Daí a ideia de copiar algo que vi o Millôr: Retratos 3×4 de amigos 6×9. De querer contar as histórias de várias pessoas que conheci e me marcaram de alguma forma, teria assunto por bastante tempo.

Outra ideia interessante seria copiar o Guilherme de Caros Leitores. Uma carta diária (ou quase) sobre a vida, o universo e tudo.

Ainda pensando.

Saudades de um tempo no qual as coisas eram mais simples e a vida era mais espontânea.

Pouco a pouco vou descobrindo como é que se vive a minha nova vida. Continuo otimista, acho que dá. Mas para dar certo, tenho que planejar quando é que posso ser espontâneo.

A nova vida é intensa. Não se pode parar. Há muito a fazer, muito a preservar, muito a pensar, muito a viver. As possibilidades são inúmeras, as coisas acontecem muito rápido. Gosto de possibilidades (possibilidades me enchem de energia). Mas para isso dar certo, muitas coisas devem ser feitas no pouco tempo disponível.

Será que isso fará o tempo passar mais rápido ou mais devagar?

Prefiro devagar, porque não tenho pressa de morrer.

Mas aí você poderia pensar: “Como assim transição? Para quê? Para onde?”

Não sei. Vamos ficar em posts crípticos e sem conteúdo até que (torço, espero) um dia me dê um clique e aí algo passe a fazer mais sentido e um estilo se imponha e os assuntos fluam e a vontade de escrever se torne tão grande a ponto de ultrapassar as restrições de tempo. (Afinal de contas, eu consigo tempo para comer todos os dias. E ando conseguindo ler. Daí para escrever deveria ser um pulim).

Posts mais curtos, talvez, quase twittados?

Caro trapézio,

Engraçado pensar.

Havia um tempo em que se escrevia quase sempre. Era bom. Naquele tempo, havia tempo para pensar nas coisas com mais vagar — e tempo para ir descrevendo as coisas com calma. Naquele tempo, há tempos findo, havia pessoas que liam o que se escrevia. Transformando isto em uma comunidade, um certo grupo, um motivo de discussões. Faz tempo.

Devo recomeçar?

Minha cabeça, como você sabe, tem opiniões díspares.

É um tempo que se acabou, pensa, como a época em que você tinha uma moto, viajava por aí e ainda era completamente deslumbrado pelas coisas.

É desnecessário, porque uma pessoa adulta e bem resolvida não tem o que colocar em um diário, nem em um crônicon, nem em um trapézio como você.

É imperativo, já que o mundo está passando rápido demais e ou começamos a marcar o tempo, ou em breve não teremos mais do que lembrar.

Não sei. E não sei qual é meu novo estilo literário.

Saudações,

R.

Eis a nova década. Deveria fazer 10 resoluções para a próxima década ao invés de fazer resoluções para o breve ano que entra. Resoluções difíceis. Coisas importantes que eu gostaria de cumprir até meus 40 anos. Pense só, é difícil fazer resoluções assim, tão longas. São muitas as incertezas. Inclusive entre as coisas que eu quero. Como posso ter como meta coisas que eu não sei se eu quero? Muito difícil.

Mas prometi para mim mesmo que iria fazer mais coisas (em breve, resoluções para 2010). Então escrever metas para 2019 é algo a ser feito, mesmo que seja difícil, impreciso, complicado. Serei abstrato nas resoluções, para ver se cola alguma coisa.

A primeira coisa que me ocorre é que não adianta fazer resoluções do que eu devo fazer. Não há nada que eu possa fazer em 10 anos (que eu saiba que deva ser feito). As resoluções devem ser do que eu quero ser. Ser algo é uma boa resolução, porque nos dá liberdade de ação.

O que eu quero ser quando crescer, então?

Feliz? Feliz é uma boa medida, mas um pouco imprecisa. O que é ser feliz? Muito complicado. Rico? Rico é uma medida relativa, ruim de ser usada. Comparando com alguns, já sou rico. Comparando com outros, nunca serei. Ter uma família? Tenho medo de colocar isso como meta para a década. Tudo que é posto como meta é alcançado, nem sempre da melhor forma. Ter uma família é algo que acontecerá sem eu ter que ter isso como meta.

Ser… o que eu quero ser quando crescer?

  1. Ser sábio. Saber das coisas. Ter segurança no que eu falo, no que eu sei e no que eu não sei. Ser reconhecido como alguém que sabe das coisas. Ser conhecido como alguém cuja opinião merece ser ouvida.
  2. Ser útil. Fazer coisas importantes, que tenham valor. Mesmo que em um universo restrito, em meu próprio ambiente. Mas importante e com valor. Ser útil é bem mais do que ser sábio, porque não se limita a saber coisas, mas a fazer algo com elas.

Essa primeira dicotomia é interessante e revela muito da minha personalidade. Sou uma pessoa meio cerebral, muito fácil de saber as coisas. Memória boa, raciocínio rápido. Mas cérebro demais atrapalha a ação. Eu admiro o mundo real e as pessoas que nele operam, fugindo de muito pensamento abstrato e indo atrás das coisas. Mesmo que eu não seja naturalmente assim, é o que desejo para mim. Andar entre 1 e 2 exige um balanço.

  1. Ser corajoso. Ser corajoso é o balanço necessário entre 1 e 2. Sair dos 10.000 pés de altitude e aterrissar exigirá coragem.
  2. Ser otimista. Ser otimista é o que vai me dar a energia necessária para ser corajoso.
  3. Ser teimoso (obstinado? ter força de vontade?). Só querendo muito as coisas elas têm chance de acontecer.

Entre 1, 2, 3, 4 e 5 tenho um desafio bacana. Provavelmente muito trabalho. Muitas coisas a fazer. Estou descrevendo a pauta de 2000-2009. Que foi muito boa mas que acabou como acabou. Precisamos de forças para contra-balancear os 5 primeiros.

  1. Ser saudável. orandum est ut sit mens sana in corpore sano.
  2. Ser simpático. É o que vai permitir ter amigos.
  3. Ser preocupado com as pessoas. Tenho meus jeitos de me preocupar com as pessoas. Preciso ter mais.
  4. Ser eficiente. É o que vai deixar eu fazer tudo ao mesmo tempo.
  5. Ter histórias para contar. É o que fará tudo valer a pena.

Sem mais delongas, 2009 foi um fracasso em termos de resoluções. Tivemos saldos positivos no lado profissional, mas obviamente através de sacrifícios na vida pessoal.

Não fui ao médico como queria. Não frequentei academias. Não me exercitei. Não li coisas interessantes. Não saí mais. Não fiz muita coisa importante (noves fora trabalhar).

Virando a página, temos um novo começo, cheio de esperanças.

Muito trabalho, pouco pensar. Aprendi horrores sobre coisas diferentes e interessantes. Conheci, namorei e terminei com a Mariana. Provavelmente perdi todos os amigos pela falta de tempo. Acabei o ano promovido e tecnicamente solvente — o que não deixa de ser um saldo, mesmo que pequeno.