Assisti ontem à Oitava Sinfonia de Mahler. A Sinfonia dos Mil. No palco, mais de 100 músicos tocam seus violinos, fagotes, oboés, trompas. Nos fundos, um grupo de cantores solistas. No coro, outros mais de 100 músicos tenores, contraltos, sopranos. Entra o regente.
Silêncio. Espera. Quando o regente corta o ar com sua batuta, o órgão toca seu primeiro acorde, e entra o coro, gigante. E depois uma “espiral de vozes, arcos, sopros e golpes parece querer alcançar os céus, exaltando a salvação”.
É uma sinfonia difícil, volumosa. Acompanho, mas nem sempre entendo.
Foi Aaron Copland quem colocou a questão — desde quando precisamos entender a música? A música está aí para ser apreciada. Por que precisaríamos aprender ou precisar de orientação sobre como entender o que ouvimos?
E ele mesmo coloca: “A resposta é simples. Ouvir música é uma habilidade adquirida por experiência e aprendizado. O conhecimento melhora a apreciação”. E ele continua, escrevendo um livro: What to Listen for in Music — que não li. Russell fala alguma coisa parecida, em o Elogio ao Ócio.
De qualquer forma, tenho na minha frente o libreto do mês da orquestra, com um artigo sobre a Oitava de Mahler. Leio (para tentar entender algo da música). O texto fala de Fausto e de Beethoven e de Parsival e de Wagner.
Uma parte do texto me chama a atenção.
Na aposta com Mefistofeles, o vencedor é o tempo pois tudo em nosso “aqui” é transitório e efêmero. Condenados, como todos nós, a nunca parar em um eterno “agora”, Goethe e Mahler nos lembram que a salvação humana depende de duas ações: o insistente Strehen, a aspiração, ainda que vã, de alcançar e realizar algo; e o amor, em suas mais variadas formas (o sensual Eros, o religioso Ágape, o maternal Caritas)
Ou seja: A salvação humana = A aspiração + O amor (Eros, Ágape, Caritas).
Eu, que quando jovem dizia que a gente deveria vir com um manual de instruções, aos poucos me convenço que o segredo está mais ou menos por aí. Uma manual de instruções sobre a vida teria essa equação na capa.
Neste ponto, cabe dizer que não estou falando sobre religião. Ateu que sou, misticismo não passa no corte de coisas importantes. Quero entender o mundo e a vida de maneira tangível, prática. A salvação humana, por exemplo, não precisa ser religiosa.
E agora talvez você se pergunte. Do que você está falando? Do que Goethe estaria falando? Por que precisaríamos de salvação?
Eu não consigo articular uma resposta, mas intuo que já passei por ela.
Cruzei por ela ao ler a Insustentável Leveza do Ser, do Milan Kundera. Uma vida sem religião é leve, leve demais, ao ponto de não fazer sentido. Precisamos de peso em nossas vidas, precisamos de sentido — o que algumas pessoas vão achar na religião, e outras vão achar em outros lugares.
Cruzei por ela ao aprender com Victor Frankl que, vivendo em um campo de concentração nazista na guerra, percebeu que apenas tendo um sentido para a vida a pessoa conseguiria sobreviver. As pessoas sem isso em suas vidas preferiam se atirar às cercas eletrificadas.
Cruzei por ela ao assistir a palestra de Dan Pink sobre motivação.
Gosto de ver todas essas conexões.
